“Amadeu Baptista, autor de poesia ao mesmo tempo amarga, satírica e erótica, exprime a dilaceração tumultuosa da consciência face à contradição quotidiana de quem habita níveis existenciais não comunicantes. Dividido entre o peso da realidade e o furor do desejo, cultiva desde o primeiro livro um exigente tom de indignação ética, ora pessimista e desesperado, ora sarcástico e cruel, que fundamenta uma crítica corrosiva da violência pseudofeminista no mundo doméstico, mistificada pelas falsas evidências do senso comum, e do sofrimento humano mais infame no trabalho e na guerra. (…) Um dos aspectos técnicos mais singulares desta poesia reside justamente na capacidade de transformar a retórica da imagem numa fenomenologia da imagem, fazendo render a seu favor a torrencialidade não raro prosaica – que à partida tenderia a provocar processos de diluição analítica – pela combinação hábil do discursivismo e do associativismo metafórico, num jogo de anáforas, elipses e acumulações barroquizantes que liberta poderosos efeitos impressionistas.”
Luís Adriano Castro