“O que me leva a fazer uma escolha de alguns estudos
que já publiquei sobre Fernando Pessoa é o facto de terem
deixado de ser acessíveis a estudantes e estudiosos que
se dedicam à obra mais oculta do planeta.
(…)Há um “mal de Pessoa”, algo que nos infiltra como
uma doença, o desafio que a sua obra representa a vários
níveis, literários e filosofantes.
Tal desafio resulta da simplicidade (aparente) e da forma
do percurso a que se entregou, entre a realidade e o sonho,
a magia e a fantasia, o ser e o não-ser.
Se Rimbaud fundou a imagem do estilhaçar da quilha
(o ímpeto centrífugo do movimento e do sofrimento pessoal
e poético), Pessoa fundou a imagem da heteronímia
implosiva tudo nele remetendo para ele, e sempre e só
para ele, por muito que se diga, por muito que se tente,
do Search da Busca ao Soares do Desassossego, distingui-
-los uns dos outros e todos de eles mesmo.
A leitura profunda é a que melhor permite entender o seu
verdadeiro anseio espiritual: conhecer, talvez mais do que
ser conhecido.”